“A realidade é um som” — por Helena Martins
Orelha do audiolivro – texto inédito encomendado pela Supersônica para Helena Martins sobre a versão em audiolivro de Autobiografia do vermelho, de Anne Carson.
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Nesta autobiografia, que é também um romance – um romance em versos –, o protagonista é Gerião, criatura vermelha alada que a mitologia grega costuma registrar como um monstro de três torsos e três cabeças, alvo de Héracles no décimo dos seus trabalhos. Ao retornar a essa remota figura mitológica, Anne Carson nos dá um livro que é ele mesmo um corpo estranho, desconjuntado, uma espécie de livro-monstro: junto ao híbrido de autobiografia, romance e poesia, traz ainda um proêmio escrito em torno do poeta grego Estesícoro de Ímera, a tradução de alguns dos fragmentos em que este teria cantado a luta entre Héracles e Gerião, e uma engraçada entrevista pseudo-póstuma com o próprio poeta. Um interesse comum perpassa essas tão heterogêneas páginas: perscrutar o ponto de vista do monstro. Se Carson se interessa por Estesícoro, é porque ele teria afrontado o hábito de narrar o triunfo de Héracles, escrevendo em vez disso uma Gerioneida. Ao inventar seu romance em versos para um Gerião vivendo nos dias de hoje, Carson emula a atitude do antigo poeta: o monstro agora se autobiografa.
Estranhamente, contar a história do ponto de vista do monstro impõe desmanchar a história e perder o ponto de vista – numa criatura alada de muitas cabeças e muitos torsos, não encontraremos um só par de olhos, nem um único percurso linear por narrar. Como Carson observa no seu proêmio, em vez de uma história retilínea, o que Estesícoro nos lega é uma “irresistível secção transversal de cenas, tanto honrosas quanto lamentáveis, a partir da experiência do próprio Gerião”. São cenas que incluem, por exemplo, um “histórico de guerra” no qual nada mais há do que o corpo do monstro deitado no chão cobrindo os ouvidos ao som “dos cavalos como rosas sendo queimadas vivas”. Vemos que não se narra aqui um momento na saga de um monstro guerreiro – antes, o monstro desfaz a história habituada que hierarquiza guerreiros, cavalos, rosas.
A autobiografia do Gerião moderno de Carson tampouco nos traz uma história linear e hierárquica, ainda que o monstro agora tenha uma só cabeça e um só corpo, preservando de sua contraparte grega apenas as asas e a cor vermelha. Se o romance não deixa de nos dar a linha temporal de uma vida – acompanhamos o Gerião desde a infância até a idade adulta –, essa vida não é narrada de um único ponto de vista. Em vez disso, também aqui nos dispersamos em meio a uma multiplicidade irresistível de cenas cruzadas, algo que já podemos experimentar desde o título. A autobiografia de Gerião é também a autobiografia de uma cor: imbricam-se numa estranha democracia as vidas do monstro e da sua cor.
Nas linhas que Carson traduz de Estesícoro e nas suas próprias, democratiza-se também a hierarquia habituada entre os sentidos da visão e da audição. Perder o ponto de vista é também aqui destronar a visão como sentido superior, afrontar o já tão falado oculocentrismo ocidental.
“A realidade é um som, há que sintonizar-se não só ficar berrando” – eis um discreto conselho que entreouvimos a certa altura desta autobiografia. E num poema de Emily Dickinson que a epigrafa, somos, no mesmo espírito, convidados a cogitar uma forma de vida humana que, diferente da nossa, disponha-se mais a escutar do que a ser escutada. Que som será o som de rosas sendo queimadas vivas? E como aproximar esse som do tropel ruidoso dos cavalos? Que som será o som do vermelho? São perguntas que os herdeiros de um Héracles triunfante não saberiam responder. As linhas de Carson, por outro lado, promovem as mais inauditas sintonias.
A tarefa de cantar sintonias assim tão múltiplas e tão elusivas no fluxo de uma só voz, saída de uma única garganta humana, é dificílima (eu mesma já tentei, ficou bem ruim). Neste audiolivro, Bianca Comparato responde ao desafio de maneira assombrosa: ritmo, respiração, pausas, sutis modulações prosódicas, tudo favorece uma experiência intensa desta Autobiografia do Vermelho, assim como esplendidamente traduzida por Ismar Tirelli Neto. Comovida com o que acabo agora de ouvir, recomendo, então: paremos de berrar; escutemos livro.
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Helena Martins é Professora Associada do Departamento de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e pesquisadora bolsista de produtividade do CNPq. Sua pesquisa tem frequentado a interface entre a filosofia e os estudos da literatura, com ênfase na investigação da linguagem como forma de vida, no estatuto dos atos poéticos em suas dimensões performativa, inceptiva e erótica, e nos trânsitos crítico-reflexivos entre poesia, ensaio e tradução.