“De uma a outra ilha” — por Guilherme Gontijo Flores
Orelha do audiolivro – texto inédito encomendado pela Supersônica para Guilherme Gontijo Flores sobre a versão em audiolivro de De uma a outra ilha, de Ana Martins Marques.
*
Ana Martins Marques tem uma trajetória muito bem estabelecida e reconhecida na poesia brasileira. Sem pestanejar, eu poderia dizer que qualquer pessoa que lê poesia no Brasil conhece o nome e boa parte da obra da poeta, e faz muito bem em conhecer. Nos seus primeiros livros, Ana foi capaz de tecer tramas sutis entre o mundo subjetivo e uma espécie de espaço interior, que contempla a casa, os encontros, os afetos, nas suas trocas mais próximas, mesmo que muitas vezes dolorosas, para daí produzir um espaço de pensamento poético contínuo.
No entanto, nesta plaquete, livrinho que é também um livraço, ela apostou num caminho mais longo e complexo, entrelaçando o dentro e o fora, a esfera privada e a pública, a criação poética e a citação tradutória, a aventura subjetiva e a concretude muito violenta dos fatos, a reflexão fria e o afeto diante de tantas pessoas exiladas e sem direito a um porto digno de chegada.
O resultado é, a meu ver, o seu trabalho mais afiado e contundente, na corda bamba entre a beleza e a dor de dizer o que não pode ser calado em nossos tempos. Reparem como, na leitura que agora temos gravada, a sua voz parece encenar esse drama perfeitamente ao longo dos poemas que fazem um só poema: nada aqui aceita um sentimentalismo que enfraqueceria o pensamento e simplificaria a questão humana; nada, por outro lado, nos promete a força dos que têm certeza absoluta. Aqui tudo é precário, frágil, humano, por isso mesmo político e, portanto, poético na sua maior importância.
*
Guilherme Gontijo Flores (Brasília, 1984) é poeta, tradutor e professor de latim na Universidade Federal do Paraná. Publicou, entre outros, os livros de poesia brasa enganosa (Patuá, 2013), Tróiades (Patuá, 2015), l’azur Blasé (Kotter/Ateliê, 2016), ADUMBRA (Contravento, 2016), Naharia (Kotter, 2017), carvão : : capim (Editora 34, 2018), avessa: áporo-antígona (Cultura e Barbárie/quaseditora, 2020) e Todos os nomes que talvez tivéssemos (Kotter/Patuá, 2020), além do romance História de Joia (Todavia, 2019). É cofundador e coeditor do blog e revista escamandro – poesia tradução crítica e é membro do grupo de poesia e performance de traduções de textos antigos e modernos, Pecora Loca.