“Subsolo ou subconsciente?” — por Caio Blat
Orelha do audiolivro – texto inédito encomendado pela Supersônica para Caio Blat sobre a versão em audiolivro de Memórias do subsolo, de Fiódor Dostoiévski.
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Em exílio voluntário, depois de receber uma modesta herança e tendo desistido de todo o convívio humano, um homem de meia idade observa o mundo por uma fresta. Perdido no submundo de seus pensamentos intrusivos, viciado em andar em círculos ao redor do próprio umbigo, ele destila seu ressentimento num discurso perpétuo.
Freud reconheceu que alguns escritores e poetas descobriram o inconsciente antes que ele mesmo desenvolvesse suas teorias psicológicas. Nesse contexto, Dostoiévski foi apontado como o maior de todos eles. Muitos críticos identificam o narrador sem nome de Memórias do subsolo como a pedra angular de toda a obra do autor russo, protótipo de herói absurdo que depois se desdobraria em personagens filósofos e polifônicos de seus grandes romances, como o Raskolnikov, de Crime e castigo, ou um Ivan Karamázov, de Os irmãos Karamázov.
Em seu porão, metáfora perfeita para os buracos obscuros de nossa mente, como um rato que vive nos esgotos de uma metrópole, o homem do subsolo enumera episódios nos quais falhou na tentativa de pertencer a qualquer círculo de relações humanas, exibe sua pusilanimidade de forma constrangedora, envergonha-se de ser inferior a todos – “Não cheguei nem mesmo a ser um inseto” –, mas considera-se, por isso mesmo, muito superior a todos, o único cidadão lúcido, numa tentativa de sobrevivência através da qual recalca o enorme poço sem fundo de sua auto-estima. Ele despreza todos os homens de ação, todo o circo de aparências em que se baseia a sociedade moderna, zomba do “belo e sublime”. Através de seus olhos, Dostoiévski esmiúça os abismos da alma humana, suas contradições e incompletudes, sua perplexidade diante do mistério da existência, sua falta de sentido.
Escritor seminal e premonitório, o autor, nas entrelinhas de seus personagens torturados pela consciência, antecipa os grandes movimentos do século XX, suas revoluções políticas, a morte de Deus, abre um buraco negro no pensamento filosófico e refunda a literatura ocidental.
Emilio de Mello é um ator sofisticado, escolha perfeita para emprestar sua inteligência e sensibilidade a esse personagem ícone. Em sua voz, as infinitas camadas do texto podem ressoar agora, nessa iniciativa da Supersônica, com sua brilhante curadoria.
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Caio Blat (São Paulo, 1980) tem atuado em muitas produções de TV, cinema e teatro, entre elas, diversas novelas da Rede Globo, no filme Bróder (prêmio de Melhor Ator no Festival de Gramado) e na peça Grande Sertão: Veredas (prêmios Shell e APTR de melhor ator). Dirige peças teatrais e há 20 anos é professor e integrante do Grupo Nós do Morro.