“S. Bernardo” — por Pedro Henrique Müller
Orelha do audiolivro – texto inédito encomendado pela Supersônica para Pedro Henrique Müller sobre a versão em audiolivro de S. Bernardo, de Graciliano Ramos, na voz de Erom Cordeiro.
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A linguagem seca, austera, forjada na violência e no trato bruto dos facões cegos, do domínio pela força, tão triste, tão reconhecivelmente brasileira, linguagem rude das ameaças.
Nesta edição temos a incrível oportunidade de ouvir a voz desse fabuloso personagem, Paulo Honório, um dos mais marcantes de toda a nossa literatura. Sua vontade de domínio, seu desejo de conquista das terras da fazenda S. Bernardo, esta, um prolongamento do próprio Paulo Honório.
Ouvimos a composição de seu relato em livro, as recordações truncadas que soam na voz de Erom Cordeiro. A voz gravada, aqui, funciona como registro dessas palavras duras e belas. Elas entram pesadas na nossa cabeça, o tom da narração é áspero, voz de derrota do protagonista.
E como é contraditória, linda e triste a sua incapacidade afetiva, letrado que foi, este homem, na linguagem da força embrutecida das relações humanas, na imposição à fórceps da sua vontade, conquistada a golpes de faca sem fio e cães de briga. Um domínio vazio, um território sem gente.
Escutamos uma voz desencantada de um personagem que tenta recompor os fatos vividos, suas escolhas trágicas, numa narrativa que se constrói já nos destroços.
Nesses cacos de memória de Paulo Honório, o narrador-voz vai se auto-devorando. Anulando sua própria história, à medida em que vamos escutando suas sequências de derrotas amargas. Diante desse vazio, de realizações materiais ocas que agora, no momento do relato, parecem valer menos que nada.
O romance é a tentativa de pôr em ordem aquilo que se perdeu, e que jamais existirá de novo, numa linda operação de pura frustração e lamento. Triste Brasil. Texto belíssimo.
É encaixar bem os fones nos ouvidos e deixar esse texto vibrar com força.
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Pedro Henrique Müller é ator formado pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e tem bacharelado em Artes Cênicas – Teoria do Teatro pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO. Participou como ator em diversas peças de teatro como A Prova de Fogo (2012); O Tempo e os Conways (2013); O Processo de Kafka (2014); Domínio do Escuro (2015); O Figurante (2016); Como os Peixes Chegaram Ali? (2016); Microteatro: Dependências (2017), As Mil e Uma Noites (2018 – 2019), Saco de Batata (2022) e Os Irmãos Karamázov (2024-2025). Estreou na TV na novela Orgulho e Paixão da Rede Globo. No cinema atuou ao lado de Paolla Oliveira no filme Herança de Narcisa de Clarissa Appelt e Daniel Dias. Trabalhou com Bia Lessa no espetáculo Macunaíma – Uma Rapsódia Musical (2019) e como ator e dramaturgo no espetáculo-exposição: Como Devo Chorá-los? (2021) – adaptação da tragédia de Antígona de Sófocles. Possui um canal no YouTube dedicado aos clássicos da literatura e do teatro.